Creatina


Creatina: suplementação para praticantes de exercícios físicos

 
Resumo



Pesquisas recentes indicam que a suplementação de Creatina (Cr) pode aumentar a quantidade de Fosfocreatina (PCr) nos músculos, mas não em todos os indivíduos. Uma alta dose de 20g.d-1 que é comum em várias pesquisas, parece não é necessária, já que com 3g.d-1 pode-se obter os mesmos efeitos. A ingestão conjunta de carboidrato com Cr pode aumentar a capacidade muscular, porém, o procedimento requer grandes quantidades dessa substância. A realização de exercícios envolvendo curtos períodos de esforços extremamente pesados pode ser aumentada, especialmente durante séries repetidas de atividade. Isto está de acordo com a importância teórica a respeito que elevadas quantidades de PCr no músculo esquelético promove melhor desempenho. A suplementação de Cr ocasiona ganho de peso dentro dos primeiros dias, provavelmente devido a retenção de água relacionada a absorção de Cr nos músculos, contudo este fato não está totalmente esclarecido, sendo que estudos revelam que a retenção hídrica não é significativa. A suplementação de Cr está associada com o acréscimo de força em programas de treinamento, uma resposta independente ao ganho inicial de peso, mas que pode estar relacionada a um maior volume e intensidade de treino que pode ser conseguido. Não há evidência definitiva que a suplementação de Cr cause complicações orgânicas aos indivíduos suplementados, os potenciais efeitos agudos de suplementação de Cr, em altas dosagens, no equilíbrio do líquido corporal, não tem sido totalmente investigado. Finalmente, aponta-se que a ingestão de Cr, imediatamente, antes e durante o exercício não é recomendada.
Introdução

A Creatina (Cr) é um elemento não essencial da dieta encontrado em abundância na carne e peixe. É sintetizada dentro do corpo, primeiramente no fígado, a partir de dois aminoácidos por uma reação de duas etapas: i) 1ª etapa, guanidinoacetate é formado de arginina e glicina numa reação catalisada por arginina: glicina amidinotransferse e ii) 2ª etapa, um grupo metil de s-adenosil metionina é transferido para guaninacetato e a Cr é formada (KRAEMER & VOLEK, 1998). O músculo não sintetiza Cr, mas é dependente de Cr da circulação por um transportador dependente de sódio na membrana muscular (JUHN & TARNOPLOSKY, 1998b). Uma vez no miócito, a Cr é fosforilizada pela enzima Creatinaquinase, a atual distribuição entre Cr e PCr é determinada pelo estado energético da célula. Importante para a discussão desse aspecto, é que a ingestão de Cr tem mostrado reduzir a síntese de Cr endógena em animais, provavelmente pela baixa regulação da enzima de Taxa-limitação amidotransferase (JUHN & TARNOPLOSKY, 1998a ; KREIDER , 1998b).

O produto final exclusivo do metabolismo de Cr é a creatinina, formada pela conversão não enzimática de PCr e Cr . Isso ocorre num valor de aproximadamente 2 % da concentração de Cr total do corpo por dia (GREEN et al, 1997 ; JUHN & TARNOPLOSKY, 1998b) . A creatinina é excretada pelos rins numa taxa de aproximadamente 2g.d-1 para um adulto médio. Como o músculo esquelético contém a maior parte da concentração de PCr e Cr do corpo, a excreção urinária de creatinina irá variar de acordo com a função da massa muscular, estando em média menor nas mulheres do que nos homens pesquisados (BOSCO et al, 1997 ; JUHN & TARNOPLOSKY, 1998a). Vegetarianos apresentam valores menores de creatinina na excreção urinária do que indivíduos com dietas normais, sugerindo que o valor da biossíntese de Cr e a concentração de Cr pelos músculos também são mais baixas do que em indivíduos que ingerem dietas ricas em Cr (KRAEMER & VOLEK, 1998). A importância da PCr durante o exercício, é dependente da natureza do exercício. Para a maioria das situações de exercício, a demanda de ATP é predominantemente provida através da fosforilização oxidativa na mitocôndria (BOOBIS et al, 1997). Porém, sob algumas condições, a produção de energia aeróbia não consegue suprir a demanda de ATP. Nesses casos, a produção de energia anaeróbia da hidrólise e glicogenólise/glicólise de PCr é necessária para ajudar na provisão de ATP (SALTIN et al, 1979). Tais casos incluem a transição do descanso ao exercício, a transição de uma força empregada à uma maior força empregada, à forças empregadas abaixo de 90-100% do máximo consumo de oxigênio (VO2 máx) e em situações onde a disponibilidade de oxigênIo for reduzida, por exemplo à altitude (HARRIS et al, 1992 ; KRAEMER & VOLEK, 1998). De fato, desde 1992, muitos autores têm sugerido que a suplementação de Cr pode ser considerada como efetiva substância ergogênica para a prática de exercícios e esportes (HARRIS, et al 1992), principalmente durante e após os exercícios de alta intensidade e pequena duração (KREIDER, et al 1998a).

A PCr serve como uma fonte prontamente disponível de ATP no músculo esquelético e em outros tecidos (BOOBIS et al, 1997). Baseado em numerosos estudos conduzidos durante as últimas décadas, há quatro aspectos gerais para a função deles no músculo. Primeiro, a Creatinaquinase atua sobre a PCr para a refosforilização rápida de ADP em ATP durante as transições entre descanso e exercício, e contribui com uma fração substancial de síntese de ATP durante o curto prazo do exercício de alta intensidade. Segundo, porque a localização intracelular da Creatinaquinase em ambos os locais para a síntese (mitocôndria) e uso (miofibrilas, sarcoplasma) do ATP, aumenta a capacidade para a difusão de alta energia de fosfato entre esses dois locais dentro da célula. Terceiro, porque a hidrólise de PCr líquida consome íons de hidrogênio, a hidrólise de PCr pode contribuir para a proteção de acidose intracelular durante o exercício. Quarto, os produtos da hidrólise de PCr (Cr e fosfato inorgânico) tem uma função na ativação da glicogenólise e outras formas catabólicas, (JUHN & TARNOPLOSKY, 1998a ; JUHN & TARNOPLOSKY, 1998b ; KRAEMER & VOLEK, 1998 ; KREIDER, 1999).

A importância relativa da hidrólise de PCr como uma fonte de energia durante contrações varia com a intensidade, duração e freqüência do exercício, (BOOBIS et al, 1997). Por exemplo, durante uma corrida de 6-s com a força empregada representando ~250% VO2 máx, a hidrólise de PCr contribui com ~50% do total de ATP exigido com muito pouca contribuição de fosforilização oxidativa, (SALTIN et al, 1979; KRAEMER & VOLEK, 1998). Por outro lado, durante uma corrida de 30s com ~200% VO2 máx, a glicólise contribui com ~55% do total de exigência de ATP, a hidrólise de PCr com 25%, e a fosforilização oxidativa com 20%, (JUHN & TARNOPLOSKY, 1998b) . De acordo com HARRIS et al, (1992) essa relativa troca do PCr como uma fonte de ATP é uma conseqüência do abastecimento limitado de PCr no músculo entre 70-90 mmol. Kg -1 relativa a inversão das taxas de ATP que ocorre no músculo durante a contração (acima de 10-15 mmol.kg-1.s-1), (. Assim, a importância da hidrólise de PCr para a síntese de ATP durante exercícios intensos, diminui dramaticamente enquanto a duração do exercício vai se elevando para além de alguns poucos segundos, (BOOBIS et al, 1997 ; KRAEMER & VOLEK, 1998).


Discussão

Diversos estudos demonstram que a suplementação de Cr apresenta efeitos ergogênicos, alguns não demonstram esses tipos de efeitos, mas pouquíssimos demonstram efeitos negativos como: aumento prejudicial de peso corporal e ocorrência de cãibras (JUHN & TARNOPLOSKY, 1998a; KREIDER, 1999). A efetividade porém varia conforme o tipo de potência ou força analisada, ou seja, força isométrica, isotônica ou isocinética (VOLEK et al, 1999).

Além disso, o uso de altas doses de Cr durante quase dois meses não promoveu nenhuma alteração no fígado ou nos rins, fato comprovado por análises bioquímicas (GREENHAFF, 1997; JUHN & TARNOPLOSKY, 1998b). Os efeitos da suplementação crônica de Cr em períodos maiores que esse não são conhecidos (GREEN et al, 1997). O que é certo, porém, é que o protocolo de sobrecarga, ou seja, 20 gr/dia (4 x 5gr) durante 5 a 6 dias não promove nenhum efeito nocivo em indivíduos saudáveis. Adicionalmente a dose crônica de 2 gr dia para permitir a manutenção parece não oferecer problemas uma vez que representa aproximadamente a mesma quantidade ingerida pela dieta de consumidores de carne (KREIDER, 1999). Adicionalmente, existe evidências de que a suplementação de Cr ao contrário do que se acredita, possa fazer bem a saúde em alguns casos, como melhoria do perfil lipídico plasmático, aumentar o metabolismo do miocárdio e reduzir a incidência de fibrilizações em pacientes com isquemia cardíaca (BOSCO, 1997 ; GREENHAFF, 1997; VOLEK et al, 1999). A análise da literatura disponível indica que o único efeito colateral reportado dessa suplementação é o ganho de peso corporal, entretanto, preocupações também tem surgido em relação quanto a suplementação de Cr se resulta em uma supressão, a longo prazo, de sua síntese endógena, se causa danos renais e hepáticos, se promove desidratação, se altera a condição eletrolítica, se aumenta a pressão arterial,, se causa mal estar gastrointestinal, se promove cãibras musculares severas ou lesões durante o treinamento (GREEN et al, 1997; KREIDER, 1999).

A literatura disponível indica que, embora seja necessárias pesquisa adicionais, não há evidências cientificas para apoiar tais preocupações, contrariamente, um número de estudos reporta que a suplementação de Cr não afeta tais parâmetros (JUHN & TARNOPLOSKY, 1998a; VOLEK et al, 1999). Além disso, há algumas evidências de que a suplementação de Cr pode afetar de modo favorável os lipídios sangüíneos, bem como fornecer benefícios terapêuticos para pacientes com deficiências na síntese de Cr, insuficiência cardíaca, doenças neuromusculares e após lesões ortopédicas (JUHN & TARNOPLOSKY, 1998b ; KREIDER, 1999).

Conseqüentemente, os estudos disponíveis indicam que a suplementação de Cr parece não oferecer nenhum risco em experimentos com duração de até cinco anos e pode trazer benefícios terapêuticos para certas populações de pacientes, (GREENHAFF, 1997; JUHN & TARNOPLOSKY, 1998a).

Contudo, alguns profissionais de saúde recomendam pesquisas adicionais, particularmente grandes estudos aleatórios controlados e avaliando os efeitos a curto e longo prazos da suplementação de Cr sobre os vários sistemas orgânicos nos quais essas substâncias desempenham um papel metabólico (JUHN & TARNOPLOSKY, 1998b). Enquanto isso, os indivíduos, particularmente aqueles com problemas de saúde, devem consultar um especialista antes da decisão de ingerir Cr ou qualquer outro suplemento nutricional (KRAEMER & VOLEK,1998).

 
Considerações finais

O mecanismo pelo qual a suplementação de Cr promove ganhos na performance não está claro. Aparentemente esse efeito é devido a influência de suplementação sob a disponibilidade de CP antes do exercício (VOLEK et al, 1999; KREIDER, 1999).

Apesar de a Creatina ser um constituinte natural dos alimentos, ela precisa ser consumida por meio de suplementos naturais, quando a intenção é promover a sobrecarga muscular. Tal fato deve se a disponibilidade de obter as quantidades necessárias por meios do consumo de alimentos (JUHN & TARNOPLOSKY, 1998b). A suplementação conjunta com carboidratos, promove o aumento na quantidade de CP intramuscular quando comparado com a suplementação isolada de Cr (KREIDER, 1999 ; VOLEK et al, 1999).


Diversos estudos demonstram que o efeito ergogênico da suplementação de Cr com relação a resistência e a potência anaeróbia e sua efetividade, depende do tipo de exercícios. Outras possibilidade promissoras quanto ao efeito de Creatina referece ao seu efeito potencial como promotora de ressintese protéica e como promotara de efeito benéficos a saúde (GREENHAFF, 1997 ; JUHN & TARNOPLOSKY, 1998a).

Apoiando a idéia de síntese protéica, existem relatos que a suplementação de Cr aumenta a massa corporal total e a livre de gordura (KREIDER, 1999 ; VOLEK et al, 1999). Com relação a uma gama de possíveis efeitos colaterais atribuídos ao consumo de Cr por diversos veículos de informações é importante exaltar de que ainda não existem evidências científicas comprobatórias sobre a questão (JUHN & TARNOPLOSKY, 1998a ; KRAEMER & VOLEK, 1998 ; KREIDER, 1999; VOLEK et al, 1999). vvv


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