Introdução
A Creatina (Cr) é um elemento não essencial da dieta encontrado em abundância na carne e peixe. É sintetizada dentro do corpo, primeiramente no fígado, a partir de dois aminoácidos por uma reação de duas etapas: i) 1ª etapa, guanidinoacetate é formado de arginina e glicina numa reação catalisada por arginina: glicina amidinotransferse e ii) 2ª etapa, um grupo metil de s-adenosil metionina é transferido para guaninacetato e a Cr é formada (KRAEMER & VOLEK, 1998). O músculo não sintetiza Cr, mas é dependente de Cr da circulação por um transportador dependente de sódio na membrana muscular (JUHN & TARNOPLOSKY, 1998b). Uma vez no miócito, a Cr é fosforilizada pela enzima Creatinaquinase, a atual distribuição entre Cr e PCr é determinada pelo estado energético da célula. Importante para a discussão desse aspecto, é que a ingestão de Cr tem mostrado reduzir a síntese de Cr endógena em animais, provavelmente pela baixa regulação da enzima de Taxa-limitação amidotransferase (JUHN & TARNOPLOSKY, 1998a ; KREIDER , 1998b).
O produto final exclusivo do metabolismo de Cr é a creatinina, formada pela conversão não enzimática de PCr e Cr . Isso ocorre num valor de aproximadamente 2 % da concentração de Cr total do corpo por dia (GREEN et al, 1997 ; JUHN & TARNOPLOSKY, 1998b) . A creatinina é excretada pelos rins numa taxa de aproximadamente 2g.d-1 para um adulto médio. Como o músculo esquelético contém a maior parte da concentração de PCr e Cr do corpo, a excreção urinária de creatinina irá variar de acordo com a função da massa muscular, estando em média menor nas mulheres do que nos homens pesquisados (BOSCO et al, 1997 ; JUHN & TARNOPLOSKY, 1998a). Vegetarianos apresentam valores menores de creatinina na excreção urinária do que indivíduos com dietas normais, sugerindo que o valor da biossíntese de Cr e a concentração de Cr pelos músculos também são mais baixas do que em indivíduos que ingerem dietas ricas em Cr (KRAEMER & VOLEK, 1998). A importância da PCr durante o exercício, é dependente da natureza do exercício. Para a maioria das situações de exercício, a demanda de ATP é predominantemente provida através da fosforilização oxidativa na mitocôndria (BOOBIS et al, 1997). Porém, sob algumas condições, a produção de energia aeróbia não consegue suprir a demanda de ATP. Nesses casos, a produção de energia anaeróbia da hidrólise e glicogenólise/glicólise de PCr é necessária para ajudar na provisão de ATP (SALTIN et al, 1979). Tais casos incluem a transição do descanso ao exercício, a transição de uma força empregada à uma maior força empregada, à forças empregadas abaixo de 90-100% do máximo consumo de oxigênio (VO2 máx) e em situações onde a disponibilidade de oxigênIo for reduzida, por exemplo à altitude (HARRIS et al, 1992 ; KRAEMER & VOLEK, 1998). De fato, desde 1992, muitos autores têm sugerido que a suplementação de Cr pode ser considerada como efetiva substância ergogênica para a prática de exercícios e esportes (HARRIS, et al 1992), principalmente durante e após os exercícios de alta intensidade e pequena duração (KREIDER, et al 1998a).
A PCr serve como uma fonte prontamente disponível de ATP no músculo esquelético e em outros tecidos (BOOBIS et al, 1997). Baseado em numerosos estudos conduzidos durante as últimas décadas, há quatro aspectos gerais para a função deles no músculo. Primeiro, a Creatinaquinase atua sobre a PCr para a refosforilização rápida de ADP em ATP durante as transições entre descanso e exercício, e contribui com uma fração substancial de síntese de ATP durante o curto prazo do exercício de alta intensidade. Segundo, porque a localização intracelular da Creatinaquinase em ambos os locais para a síntese (mitocôndria) e uso (miofibrilas, sarcoplasma) do ATP, aumenta a capacidade para a difusão de alta energia de fosfato entre esses dois locais dentro da célula. Terceiro, porque a hidrólise de PCr líquida consome íons de hidrogênio, a hidrólise de PCr pode contribuir para a proteção de acidose intracelular durante o exercício. Quarto, os produtos da hidrólise de PCr (Cr e fosfato inorgânico) tem uma função na ativação da glicogenólise e outras formas catabólicas, (JUHN & TARNOPLOSKY, 1998a ; JUHN & TARNOPLOSKY, 1998b ; KRAEMER & VOLEK, 1998 ; KREIDER, 1999).
A importância relativa da hidrólise de PCr como uma fonte de energia durante contrações varia com a intensidade, duração e freqüência do exercício, (BOOBIS et al, 1997). Por exemplo, durante uma corrida de 6-s com a força empregada representando ~250% VO2 máx, a hidrólise de PCr contribui com ~50% do total de ATP exigido com muito pouca contribuição de fosforilização oxidativa, (SALTIN et al, 1979; KRAEMER & VOLEK, 1998). Por outro lado, durante uma corrida de 30s com ~200% VO2 máx, a glicólise contribui com ~55% do total de exigência de ATP, a hidrólise de PCr com 25%, e a fosforilização oxidativa com 20%, (JUHN & TARNOPLOSKY, 1998b) . De acordo com HARRIS et al, (1992) essa relativa troca do PCr como uma fonte de ATP é uma conseqüência do abastecimento limitado de PCr no músculo entre 70-90 mmol. Kg -1 relativa a inversão das taxas de ATP que ocorre no músculo durante a contração (acima de 10-15 mmol.kg-1.s-1), (. Assim, a importância da hidrólise de PCr para a síntese de ATP durante exercícios intensos, diminui dramaticamente enquanto a duração do exercício vai se elevando para além de alguns poucos segundos, (BOOBIS et al, 1997 ; KRAEMER & VOLEK, 1998).
Discussão
Diversos estudos demonstram que a suplementação de Cr apresenta efeitos ergogênicos, alguns não demonstram esses tipos de efeitos, mas pouquíssimos demonstram efeitos negativos como: aumento prejudicial de peso corporal e ocorrência de cãibras (JUHN & TARNOPLOSKY, 1998a; KREIDER, 1999). A efetividade porém varia conforme o tipo de potência ou força analisada, ou seja, força isométrica, isotônica ou isocinética (VOLEK et al, 1999).
Além disso, o uso de altas doses de Cr durante quase dois meses não promoveu nenhuma alteração no fígado ou nos rins, fato comprovado por análises bioquímicas (GREENHAFF, 1997; JUHN & TARNOPLOSKY, 1998b). Os efeitos da suplementação crônica de Cr em períodos maiores que esse não são conhecidos (GREEN et al, 1997). O que é certo, porém, é que o protocolo de sobrecarga, ou seja, 20 gr/dia (4 x 5gr) durante 5 a 6 dias não promove nenhum efeito nocivo em indivíduos saudáveis. Adicionalmente a dose crônica de 2 gr dia para permitir a manutenção parece não oferecer problemas uma vez que representa aproximadamente a mesma quantidade ingerida pela dieta de consumidores de carne (KREIDER, 1999). Adicionalmente, existe evidências de que a suplementação de Cr ao contrário do que se acredita, possa fazer bem a saúde em alguns casos, como melhoria do perfil lipídico plasmático, aumentar o metabolismo do miocárdio e reduzir a incidência de fibrilizações em pacientes com isquemia cardíaca (BOSCO, 1997 ; GREENHAFF, 1997; VOLEK et al, 1999). A análise da literatura disponível indica que o único efeito colateral reportado dessa suplementação é o ganho de peso corporal, entretanto, preocupações também tem surgido em relação quanto a suplementação de Cr se resulta em uma supressão, a longo prazo, de sua síntese endógena, se causa danos renais e hepáticos, se promove desidratação, se altera a condição eletrolítica, se aumenta a pressão arterial,, se causa mal estar gastrointestinal, se promove cãibras musculares severas ou lesões durante o treinamento (GREEN et al, 1997; KREIDER, 1999).
A literatura disponível indica que, embora seja necessárias pesquisa adicionais, não há evidências cientificas para apoiar tais preocupações, contrariamente, um número de estudos reporta que a suplementação de Cr não afeta tais parâmetros (JUHN & TARNOPLOSKY, 1998a; VOLEK et al, 1999). Além disso, há algumas evidências de que a suplementação de Cr pode afetar de modo favorável os lipídios sangüíneos, bem como fornecer benefícios terapêuticos para pacientes com deficiências na síntese de Cr, insuficiência cardíaca, doenças neuromusculares e após lesões ortopédicas (JUHN & TARNOPLOSKY, 1998b ; KREIDER, 1999).
Conseqüentemente, os estudos disponíveis indicam que a suplementação de Cr parece não oferecer nenhum risco em experimentos com duração de até cinco anos e pode trazer benefícios terapêuticos para certas populações de pacientes, (GREENHAFF, 1997; JUHN & TARNOPLOSKY, 1998a).
Contudo, alguns profissionais de saúde recomendam pesquisas adicionais, particularmente grandes estudos aleatórios controlados e avaliando os efeitos a curto e longo prazos da suplementação de Cr sobre os vários sistemas orgânicos nos quais essas substâncias desempenham um papel metabólico (JUHN & TARNOPLOSKY, 1998b). Enquanto isso, os indivíduos, particularmente aqueles com problemas de saúde, devem consultar um especialista antes da decisão de ingerir Cr ou qualquer outro suplemento nutricional (KRAEMER & VOLEK,1998).
Considerações finais
O mecanismo pelo qual a suplementação de Cr promove ganhos na performance não está claro. Aparentemente esse efeito é devido a influência de suplementação sob a disponibilidade de CP antes do exercício (VOLEK et al, 1999; KREIDER, 1999).
Apesar de a Creatina ser um constituinte natural dos alimentos, ela precisa ser consumida por meio de suplementos naturais, quando a intenção é promover a sobrecarga muscular. Tal fato deve se a disponibilidade de obter as quantidades necessárias por meios do consumo de alimentos (JUHN & TARNOPLOSKY, 1998b). A suplementação conjunta com carboidratos, promove o aumento na quantidade de CP intramuscular quando comparado com a suplementação isolada de Cr (KREIDER, 1999 ; VOLEK et al, 1999).
Diversos estudos demonstram que o efeito ergogênico da suplementação de Cr com relação a resistência e a potência anaeróbia e sua efetividade, depende do tipo de exercícios. Outras possibilidade promissoras quanto ao efeito de Creatina referece ao seu efeito potencial como promotora de ressintese protéica e como promotara de efeito benéficos a saúde (GREENHAFF, 1997 ; JUHN & TARNOPLOSKY, 1998a).
Apoiando a idéia de síntese protéica, existem relatos que a suplementação de Cr aumenta a massa corporal total e a livre de gordura (KREIDER, 1999 ; VOLEK et al, 1999). Com relação a uma gama de possíveis efeitos colaterais atribuídos ao consumo de Cr por diversos veículos de informações é importante exaltar de que ainda não existem evidências científicas comprobatórias sobre a questão (JUHN & TARNOPLOSKY, 1998a ; KRAEMER & VOLEK, 1998 ; KREIDER, 1999; VOLEK et al, 1999). vvv
Bibliografia
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